Discussão envolvendo a Igreja Católica ganhou espaço na reta final das eleições após declarações sobre uma proposta relacionada ao título de Padroeira do Brasil.

Uma discussão envolvendo a Igreja Católica, Nossa Senhora Aparecida e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) ganhou repercussão política e nas redes sociais nos últimos dias. No centro da controvérsia está a afirmação de que haveria uma movimentação para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil e a associação dessa iniciativa ao candidato.
O assunto ganhou projeção nacional após comentário da jornalista Maria Cristina Fernandes, durante o programa Em Pauta, da GloboNews. Ao analisar a movimentação do eleitorado católico na reta final da eleição, ela mencionou uma reação dentro da Igreja a uma iniciativa atribuída a setores evangélicos que buscaria alterar o reconhecimento de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil.
A declaração repercutiu rapidamente e passou a ser relacionada diretamente à candidatura de Flávio Bolsonaro. Posteriormente, a GloboNews corrigiu a informação e esclareceu que não havia elementos para estabelecer ligação entre o candidato e a proposta mencionada.
O que existe no Congresso?
A discussão tem um antecedente no Congresso Nacional, mas ele não é recente.
Em dezembro de 2007, o então deputado federal Professor Victório Galli apresentou o Projeto de Lei 2.623/2007. O texto pretendia alterar a Lei nº 6.802/1980 para substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”.
Na prática, a proposta restringiria a referência legal a Nossa Senhora Aparecida aos brasileiros católicos, em vez de mantê-la como Padroeira do Brasil.
O projeto, no entanto, não avançou. A proposta foi rejeitada durante sua tramitação na Câmara dos Deputados e arquivada em 2008.
Não há, nos registros desse projeto, autoria de Flávio Bolsonaro.
Flávio reage à repercussão
Com o assunto circulando nas redes sociais e entrando no debate eleitoral, Flávio Bolsonaro publicou um vídeo na quinta-feira (24/09) para negar qualquer intenção de retirar o título de Nossa Senhora Aparecida.
O candidato classificou a informação como falsa e afirmou que o projeto atribuído a ele não existe. A campanha também reagiu à circulação das publicações e informou que avaliaria medidas jurídicas.
A resposta de Flávio passou a integrar uma disputa de versões que ganhou dimensão justamente pela proximidade do primeiro turno e pelo peso do eleitorado religioso na campanha.
E onde entra a Igreja Católica?
A controvérsia não surgiu isoladamente. Nas últimas semanas, manifestações de integrantes e setores da Igreja Católica passaram a ocupar maior espaço no debate eleitoral.
Bispos, dioceses e organizações ligadas à Igreja têm publicado manifestações e orientações sobre participação política, abordando temas como democracia, combate à pobreza, justiça social, soberania, meio ambiente e defesa do bem comum.
Isso não significa, por si só, que a Igreja Católica tenha declarado apoio institucional a determinado candidato. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), por exemplo, historicamente apresenta orientações e reflexões eleitorais sem indicar oficialmente em quem os fiéis devem votar.
Nesse ambiente, a discussão sobre Nossa Senhora Aparecida ganhou dimensão política e passou a ser incorporada à disputa eleitoral.
Afinal, Flávio Bolsonaro apresentou esse projeto?
Até esta sexta-feira (25/09), não há registro de que Flávio Bolsonaro tenha apresentado o projeto de 2007 que propunha alterar a referência a Nossa Senhora Aparecida.
O projeto que efetivamente existiu foi apresentado pelo então deputado Professor Victório Galli, em 2007, e acabou arquivado no ano seguinte.
A associação da proposta a Flávio Bolsonaro ganhou repercussão durante a cobertura eleitoral, foi contestada pelo candidato e posteriormente corrigida pela própria GloboNews.
O episódio, no entanto, colocou a relação entre religião e política novamente no centro da campanha presidencial, agora envolvendo um dos símbolos religiosos mais conhecidos do país.