
Enquanto o país enfrenta debates importantes, milhões de brasileiros se mobilizam para votar no paredão do Big Brother Brasil (BBB). Seria só entretenimento ou existe algo mais por trás desse fenômeno?
Falamos com o Professor de Educação Linguística Política, Marcos Flávio Barbosa, o qual questionamos se é exagero comparar o entretenimento de massa atual com o “pão e circo”. Segundo ele, talvez essa semelhança seja um pouco rasa, ou superficial, talvez anacrônica.
Pão e circo
“Pão e circo” é uma expressão que vem da Roma Antiga, se refere à estratégia usada por governantes romanos para evitar revoltas. Enquanto o povo estava alimentado e entretido, ficava menos atento aos problemas políticos e desigualdades.
De acordo com o Professor, o “pão e circo” pode ser utilizado como uma metáfora sobre a manipulação, de certa forma, da população, assim como a metáfora da ‘Matriz’, por exemplo. “No entanto, esse entretenimento de massa vai além da manipulação social, porque ele gira e gera capital dentro de um mercado”, explica.
Ainda segundo Marcos Flávio, há todo um arsenal marketeiro por trás que cria esse entretenimento e isso é vendido na nossa atualidade, “isso é mercadoria, haja vista que os participantes dos programas nem almejam o prêmio milionário final, mas estão preocupados com a construção de uma imagem, de uma personagem para ser monetizada”.
Influência
Questionamos o Professor de Educação Linguística Política se a edição pode direcionar a opinião pública mesmo sem o público perceber e ele confirma. Segundo ele, as/os brothers compõem a sociedade e dessa forma carregam, reproduzem suas ideologias e posicionamentos no programa. “Assim, convencionamos chamar este fenômeno de bolha social, isto é, várias pessoas se veem nos discursos, nas posturas, na linguagem dos participantes e vão criando bolhas sociais que ultrapassam a barreira física, mas vão para espaços web digitais. Na internet, algoritmos auxiliam a criação de bolhas, dessa forma que temos sempre debates calorosos sobre atitudes, falas e ideologias reproduzidas no programa”, completa.
Cancelamento
Vivemos na era do cancelamento e enquanto o programa é exibido não é diferente. Podemos, até, lembrar de figuras importantes como a Karol Conka que passou pelo programa e teve até mesmo a carreira que já tinha sido construída há um tempo comprometida.
Segundo ele, o cancelamento no BBB é um dos muitos fenômenos sociais que reflete práticas da sociedade. A sociedade, o senso comum, é construída no pensamento binário e antagônico. “Bem e mal, herói e vilão, polícia e ladrão, Deus e Diabo, etc… o cancelamento é fruto desse extremismo, como falado, cria-se as bolhas sociais e tudo que não pertence a minha bolha social eu vou cancelar, eu vou negar a existência”.
Debates importantes
Assim como o cancelamento, o programa pode trazer, também, informações através de alguns participantes que têm uma bagagem de aprendizado. Toda edição gera debate nas massas de temáticas como o racismo, transfobia, homofobia, igualdade de gênero, masculinidade, religiosidade, etc. e, segundo o Professor, temos representantes políticos eleitos graças à popularidade construída dentro do programa.
“Claramente o BBB não só pode debater essas pautas sociais, como ele o faz. Ajuda o público oferecendo um letramento mesmo que mínimo sobre essas temáticas. Um participante problematizando algum estigma social gera polêmica, gera debate, mas a responsabilidade está mais na sociedade”.
Debate crítico
Ao ser questionado se o consumo desse tipo de conteúdo pode afetar a capacidade de debate crítico, Marcos Flávio responde que depende muito de quem consome e quem debate. “Não somos tão passivos assim, para que ocorra o debate crítico depende do repertório sociocultural de quem está debatendo. Claro, se você considera uma pessoa que consome única e exclusivamente este conteúdo é claro que ela será mais rasa do que uma pessoa que consome outros conteúdos, tem outras formações sociais, participa de outros debates, cria outros discursos e narrativas.”
Segundo ele, a criticidade não está no conteúdo, mas no sujeito que consome o conteúdo e o mobiliza para um determinado fim, propósito. “Em um debate, você pode defender um ponto de vista partindo da literatura, do cinema, da arte, ou do entretenimento”, explica.
O BBB pode ser jogo, espetáculo e estratégia de mercado ao mesmo tempo. Pode gerar debates importantes e também reforçar simplificações perigosas. Pode entreter, engajar e distrair. No fim, como destaca o professor, a criticidade não está apenas no conteúdo exibido, mas na forma como cada pessoa escolhe consumi-lo.