Após passar anos sem falar inglês, Lorrayne Martins vendeu o carro para estudar na Inglaterra e voltou a Goiânia, onde começou dando aulas na sala de casa.
O inglês que hoje faz parte da profissão de Lorrayne Martins já foi motivo para que ela preferisse ficar em silêncio. Antes de criar uma escola com centenas de alunos, a professora enfrentou bullying, passou anos evitando falar o idioma e deixou para trás a estabilidade profissional para tentar construir um novo caminho.
Lorrayne morou na Inglaterra dos 7 aos 11 anos e foi alfabetizada em inglês. Quando voltou ao Brasil e ingressou em uma escola pública, sofreu bullying por falar português com sotaque e dominar um segundo idioma. O impacto foi tão grande que, dos 11 aos 16 anos, evitou falar inglês.
O pai foi fundamental para que aquela história não terminasse ali. Mesmo diante da resistência da filha, matriculou Lorrayne em um curso de inglês. Anos depois, ela se formou em Letras, conquistou certificação da Universidade de Cambridge e começou a trabalhar em escolas bilíngues.
Um carro vendido e uma decisão arriscada
Depois de cerca de quatro anos trabalhando em instituições de ensino, Lorrayne percebeu que queria seguir outro caminho. Vendeu o carro, pediu o acerto nas duas escolas onde trabalhava e embarcou para a Inglaterra com dinheiro suficiente para a passagem e apenas dois meses de moradia.
Para permanecer no país enquanto concluía uma certificação internacional, trabalhou como diarista e babá. Entre um trabalho e outro, chegou a fazer refeições com comida gelada dentro do metrô.
O retorno a Goiânia e o começo dentro de casa
Em 2021, Lorrayne voltou ao Brasil. Sem uma grande estrutura, começou a dar aulas particulares online na sala de casa, em Goiânia. O primeiro aluno trouxe outros e, em pouco tempo, ela passou a trabalhar das 7h às 21h.
A demanda cresceu, novos professores foram contratados e o projeto ganhou espaço próprio. Cinco anos depois, o Inglês Sem Fronteiras reúne 453 alunos e 20 professores, com sede em Goiânia e atendimento presencial e online. Cerca de 70% dos estudantes estão na modalidade virtual, incluindo brasileiros que vivem no exterior.
A própria experiência de Lorrayne também inspirou a criação do método Produção Ativa, voltado principalmente para adultos.
“Tenho muito orgulho de falar que o método do Inglês Sem Fronteiras é autoral, porque foi construído baseado na experiência que eu tive como pessoa falante da língua inglesa, mas também como alguém que se sentiu travada”, afirma.
Em 2026, a escola completa cinco anos. A menina que um dia deixou de falar inglês para não ser alvo dos colegas hoje ensina o idioma que já lhe causou insegurança. E a sala de casa onde tudo começou deu lugar a uma escola que alcança alunos dentro e fora do Brasil.