
Na virada do ano, milhões de brasileiros escolhem com cuidado a cor da roupa que vão vestir. Mais do que moda, a escolha carrega desejos, crenças e tradições que atravessam séculos e culturas. O que acaba afetando também o mercado, já que muitas pessoas buscam a “cor ideal” para usar na virada.
Origem
Conversamos com o historiador Giovanni Lisboa. Ele explica que as cores já tinham significados em algumas civilizações, como o verde para os egípcios, que representava renascimento e regeneração, já que era escolhida como a cor de Osíris. “Na China Antiga, o vermelho era usado para afastar o monstro e o amarelo representa a estabilidade imperial. Um pouco mais filosófico, para Platão as cores representavam sentimentos”, reforça.
Ainda de acordo com o historiador, na Antiguidade, as cores tinham um papel significativo no aspecto existencial e, principalmente, religioso. O azul representava o céu e as divindades religiosas.
“A festa de Ano Novo vem da tradição europeia do calendário gregoriano, uma adaptação do calendário juliano, no qual o ano se inicia no mês de Jânio, o deus de duas faces, uma para o passado e uma para o futuro.” Mas, segundo Giovanni, no Brasil isso carrega um significado importante do sincretismo religioso. As tradições de usar branco vêm das religiões de matriz africana. “Pular sete ondinhas ganha força a partir da década de 1970, período conturbado, representava a resistência, pois nos anos anteriores a cultura afro-brasileira tinha sido muito perseguida, com a proibição do samba e dos terreiros.”
Mercado
Ao ser questionado se acredita que o mercado ajuda a manter viva essa tradição ou contribui para o esvaziamento do seu significado original, o historiador responde que o mercado atua como um agente de manutenção e transformação. “De certa forma, mantém vivo o uso das cores, mas esvazia seu sentido original, especificamente o religioso, como exemplo o branco, que simboliza a paz.” Porém, ele acredita que seu sentido de representação às divindades de matriz africana no Brasil foi historicamente apagado.
Giovanni não acredita que essa tendência acabe, mas, de acordo com ele, as gerações anteriores seguiam rituais coletivos, já as novas vão misturando tradições antigas com conceitos modernos de bem-estar e autoconhecimento.
Ele imagina, também, que podem surgir novos significados, “principalmente com o estudo das cores pela psicologia. Cores que geram ansiedade, agitação, que acalmam, possivelmente isso irá refletir no imaginário social, trazendo novas interpretações e novas formas de interação com as cores”, finaliza.
Religiosidade
Falamos com Brayan Luiz, operacional de uma empresa de tecnologia financeira (fintech). Ele é umbandista e foi orientado por uma entidade a usar vermelho na virada do ano. “Muitas pessoas ligam amarelo a dinheiro, branco à paz e vermelho à paixão, mas entendi que também significa vitalidade e determinação”, explica.
Segundo ele, a família não acredita nessa doutrina. “Cada um usa a cor que gosta, independente do significado”, relata. Brayan Luiz passou a seguir o costume logo quando entrou na religião e acredita que a cor pode interferir no restante do ano.
Já o barbeiro Fernando Santos não vai seguir esse costume. Ele veio de família cristã e não foi ensinado a seguir essa tradição das cores. “No máximo, acreditavam que passar de branco era bom, mas nunca tinha um motivo especial.” De acordo com Fernando, quem define o que vai acontecer no ano são as atitudes e consequências da vida. “Vou passar com cores que gosto e que me sinto bem”, reforça.
Escolha
Entre registros históricos, tradições religiosas e escolhas pessoais, a crença nas cores do Ano Novo segue atravessando gerações. Para alguns, a fé. Para outros, costume ou apenas estética. No fim, mais do que a roupa escolhida, o Réveillon revela o desejo coletivo por renovação, esperança e novos começos, ainda que cada um enxergue esse ritual à sua própria maneira.