
O Natal, hoje associado à celebração cristã do nascimento de Jesus, tem raízes que antecedem o cristianismo e dialogam com práticas pagãs europeias ligadas ao solstício de inverno. Com o passar dos séculos, símbolos, rituais e tradições foram reinterpretados, e a data tornou-se também um dos eventos comerciais mais rentáveis do mundo. Para entender essa trajetória, conversamos com Lanusse Melo, historiadora e praticante pagã, que explica as origens, transformações e ressignificações do Natal.
Segundo a historiadora, antes do cristianismo, as festividades que aconteciam nessa mesma época do ano eram realizadas no solstício de inverno, marcado pela entrada do Sol no signo de Capricórnio. Entre os celtas, eram celebrados o Yule e o Blot. Independente do lugar e da cultura, os antigos rituais enfatizavam o retorno da luz e do calor por meio de fogueiras, danças, canções, tambores, sinos, práticas mágicas e oferendas. Também se comemorava o nascimento de deuses solares como Attis, Adônis, Baal, Baldur, Bel, Dionísio, Frey, Hélios, Hórus, Lugh, Mithra, Osíris, Quetzalcoatl, Rá, Surya e Tammuz.
Com o advento do cristianismo, essas festividades foram proibidas, mas não puderam ser eliminadas. De acordo com Lanusse, a solução encontrada pela Igreja foi o sincretismo, adaptando o significado romano do solstício, o Dia do Nascimento do Sol Invicto, dedicado a Mithra e Hélios, para a celebração do nascimento de Jesus. Assim, festividades pagãs foram sobrepostas às cristãs.
25 de dezembro
Jesus Cristo e Sol Invictus compartilham a mesma data simbólica de nascimento, 25 de dezembro. Questionada sobre as influências pagãs presentes no Natal atual, Lanusse afirma que a árvore natalina é herdeira direta do costume celta de decorar pinheiros com símbolos de projetos, desejos e aspirações. Já a troca de presentes tem origem romana, herdada das celebrações da Saturnália. As guirlandas decoradas com fitas e sinos eram colocadas nas portas para atrair boas vibrações e fartura.
A origem do Papai Noel também é sincrética. Lanusse explica que a figura mistura São Nicolau, bispo cristão do século IV conhecido por ajudar os pobres; Odin, deus nórdico que cavalgava pelos céus durante o solstício de inverno; além de elementos do folclore germânico e holandês. A versão moderna e comercial, com roupa vermelha e aparência jovial, foi popularizada nos Estados Unidos, especialmente por campanhas da Coca-Cola nos anos 1930.
A tradição europeia chegou ao Brasil com os colonizadores portugueses e foi reforçada ao longo dos séculos pela Igreja Católica e pelas ondas migratórias de alemães e italianos. No século XX, meios de comunicação e comércio consolidaram símbolos como o Papai Noel e a árvore de Natal.
Então é Natal
Lanusse aponta que a forma como celebramos o Natal no Brasil resulta de uma fusão de crenças e culturas adaptadas ao cristianismo. Há, porém, uma dissonância entre os símbolos natalinos e a realidade brasileira. O Natal tem origem em países do hemisfério norte, onde dezembro marca o inverno e elementos como neve e frio fazem sentido. No Brasil, ao contrário, dezembro marca o início do verão. Para a historiadora, isso torna o Natal uma data simbolicamente estrangeira, celebrada principalmente pela força da religião predominante e do comércio.
Como praticante pagã, Lanusse defende que o Natal brasileiro, em sua essência ligada aos ciclos naturais, deveria ser celebrado em junho, período do inverno no país, com comidas quentes, partilha de alimentos e doação de agasalhos. Já dezembro seria dedicado à celebração do verão, com alegria, luz solar e alimentos tropicais.
Comércio e religião
O Natal é a celebração mais popular do mundo, tanto nas vendas quanto na fé. Apesar de seu caráter cada vez mais comercial, a data ainda carrega simbolismo de união, partilha e renascimento. Lanusse ressalta que, mesmo com símbolos que não dialogam com o clima brasileiro, os costumes natalinos permanecem profundamente enraizados na cultura. Como pagã, ela afirma que observa a natureza e organiza sua vida conforme as estações, celebrando o solstício com sua família, mas também reconhecendo a força social e afetiva do Natal cristão.
Cada família celebra de acordo com sua tradição e sua crença. No fim, tanto na perspectiva pagã quanto na cristã, permanece o sentido central da data: compartilhar, estar perto de quem se ama e cultivar harmonia.