Presidente do Paraguai renuncia após crise do Ueno Bank; caso relembra Plano Collor no Brasil
Santiago Peña renunciou à Presidência do Paraguai em meio à crise do Ueno Bank, que afetou cerca de 3 milhões de clientes. Entenda o bloqueio de bens e a comparação com o Plano Collor de 1990.
Intervenção no banco digital afetou cerca de 3 milhões de clientes; entenda a crise, a disputa pelo poder e a diferença em relação ao bloqueio da poupança brasileira em 1990.

O presidente do Paraguai, Santiago Peña, apresentou renúncia ao cargo nesta quinta-feira (05/11), em meio a uma crise financeira e política provocada pela intervenção no Ueno Bank, uma das maiores instituições digitais do país. O banco, que reúne aproximadamente 3 milhões de clientes, teve as operações afetadas e deixou correntistas temporariamente sem acesso ao próprio dinheiro. A situação provocou protestos, medidas judiciais e pressão no Congresso Nacional.
O anúncio foi feito pelo mandatário em vídeo divulgado nas redes sociais, enquanto deputados discutiam a abertura de um processo de impeachment. Em seguida, a carta de renúncia foi encaminhada formalmente ao Congresso. Peña afirmou que tomou a decisão para preservar a estabilidade do país e a paz social. Também pediu desculpas à população e defendeu a proteção das economias depositadas no sistema financeiro.
A crise reacendeu no Brasil a lembrança de outro episódio de grande impacto sobre correntistas: o Plano Collor, de 1990, quando o governo federal bloqueou parte do dinheiro mantido em contas correntes e poupanças. Apesar da semelhança para quem ficou impedido de movimentar os recursos, os dois casos têm causas e mecanismos distintos.
O que aconteceu com o Ueno Bank
O Banco Central do Paraguai (BCP) anunciou em 03/11 o início de um procedimento de resolução do Ueno Bank, aprovado pela autoridade monetária no dia anterior. Segundo o órgão, ajustes nos demonstrativos financeiros revelaram que o índice de solvência do banco havia caído para menos da metade do mínimo exigido pela regulamentação. A solvência indica a capacidade de uma instituição de suportar perdas e honrar suas obrigações.
Com a medida, foram designadas providências para verificar o patrimônio da instituição, preservar ativos e organizar a transferência ou o pagamento de obrigações conforme a legislação paraguaia. Na prática, clientes relataram dificuldades para acessar contas e realizar operações, levando a manifestações em Assunção e a cobranças pela devolução dos depósitos.
O BCP sustenta que se trata de um problema específico do Ueno Bank, e não de uma crise generalizada do sistema bancário do Paraguai. A investigação busca esclarecer eventuais irregularidades na concessão de créditos e nas relações financeiras da instituição com empresas ligadas a seus controladores.
Por que o presidente entrou no centro da crise
Santiago Peña foi acionista do Grupo Vázquez, ligado ao Ueno Bank, até março de 2025, segundo informações divulgadas pela Reuters e pela imprensa paraguaia. Durante seu governo, o banco recebeu depósitos expressivos de órgãos públicos, inclusive de entidades responsáveis por recursos previdenciários. Essa ligação anterior tornou-se um dos pontos centrais das acusações políticas.
Parlamentares da oposição apontaram suspeitas de conflito de interesses, falhas de fiscalização e uso inadequado de recursos públicos. São acusações sob apuração, e não conclusões judiciais sobre responsabilidade criminal do presidente. Peña negou irregularidades pessoais e defendeu que todos os responsáveis por eventuais ilícitos sejam investigados.
A crise também provocou a saída de Carlos Carvallo da presidência do Banco Central paraguaio. Ele já havia comandado uma instituição que antecedeu o Ueno e renunciou em 03/11, em meio aos questionamentos sobre a supervisão do banco.
Câmara aprova impeachment mesmo após a renúncia
A renúncia não encerrou imediatamente a disputa política. Horas depois do anúncio, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou, por unanimidade dos 78 parlamentares presentes, a acusação para abrir um julgamento político contra Peña. Cabe ao Senado decidir os próximos passos do processo, enquanto o Congresso também analisa formalmente a carta de renúncia.
A Câmara rejeitou, por 48 votos a 30, uma proposta de impeachment contra o vice-presidente Pedro Alliana. Pela regra de sucessão do Paraguai, Alliana é o nome previsto para assumir a Presidência e completar o mandato até agosto de 2028, após a formalização da saída de Peña. Até a última confirmação consultada para esta reportagem, a deliberação sobre a aceitação da renúncia ainda estava em andamento.
A divergência entre aceitar a renúncia e levar adiante o julgamento político também envolve possíveis efeitos jurídicos e políticos sobre o futuro de Peña. Parte da oposição defende a continuidade do impeachment para que as denúncias sejam examinadas no âmbito legislativo.
Justiça determina bloqueio de bens ligados ao banco
No Paraguai, medidas judiciais atingiram executivos e empresas relacionados ao Ueno Bank. Em 03/11, a Justiça decretou embargo preventivo sobre bens de dirigentes e companhias acionistas, a pedido do Banco Central, com a finalidade de resguardar patrimônio que possa servir à recuperação de recursos dos depositantes.
Em nova decisão divulgada em 05/11, a Justiça paraguaia determinou restrições patrimoniais e a imobilização preventiva de contas de 34 pessoas físicas e jurídicas vinculadas à investigação, segundo o jornal ABC Color. Entre os alvos estão dirigentes do banco e empresas associadas. O bloqueio é uma medida cautelar e não significa, por si só, condenação dos envolvidos.
Quando os clientes poderão recuperar o dinheiro
O Banco Central paraguaio anunciou nesta quinta-feira (05/11) o início dos pagamentos de garantia a um primeiro grupo de depositantes do Ueno Bank. Nessa etapa, estão incluídos clientes com até 10 milhões de guaranis depositados, sem dívidas com o banco e com conta habilitada em outra instituição financeira do país. Quem atender aos critérios e possuir saldo dentro desse teto poderá receber o valor integral dos depósitos nessa fase.
A garantia geral do Fundo de Garantia de Depósitos do Paraguai chega a 75 salários mínimos por depositante e por instituição financeira, atualmente equivalentes a 228,3 milhões de guaranis, conforme o BCP. Valores acima do limite dependem dos mecanismos de recuperação de ativos previstos na legislação. O calendário para os demais grupos ainda seria informado pela autoridade monetária.
O que aconteceu no Brasil com o Plano Collor em 1990
No Brasil, o episódio mais lembrado quando se fala em dinheiro bloqueado nos bancos ocorreu em março de 1990. Um dia depois da posse de Fernando Collor de Mello na Presidência, o governo anunciou o Plano Brasil Novo, que ficou conhecido como Plano Collor, para tentar conter a inflação extremamente elevada da época.
A medida restringiu saques e resgates de depósitos bancários e aplicações financeiras. Na poupança e nas contas correntes, apenas valores até 50 mil cruzados novos ficaram disponíveis nas condições estabelecidas pelo plano. A parcela excedente foi bloqueada por até 18 meses e transferida para controle do Banco Central do Brasil, com regras de correção e restituição.
O bloqueio atingiu famílias e empresas, provocou dificuldades de pagamento e marcou profundamente a memória econômica do país. Segundo o próprio Banco Central, a medida contribuiu para uma forte recessão e não conseguiu conter a inflação como o governo pretendia.

O episódio não foi a causa direta da renúncia de Collor. O então presidente deixou o cargo em 29/12/1992, mais de dois anos depois, em meio ao julgamento de impeachment relacionado a denúncias de corrupção. O Senado prosseguiu com a aplicação da sanção de inabilitação para o exercício de funções públicas por oito anos.
A comparação entre Brasil e Paraguai exige cuidado
A principal semelhança é o impacto sobre a população: tanto no Plano Collor quanto na crise do Ueno Bank houve pessoas impossibilitadas de movimentar recursos que consideravam disponíveis. O bloqueio de dinheiro afeta despesas cotidianas, negócios e a confiança nas instituições.
A diferença está na origem da restrição. Em 1990, o governo brasileiro adotou uma medida econômica nacional que alcançou depósitos de diferentes bancos. Em 2026, a crise paraguaia decorre do procedimento de resolução aplicado a uma instituição específica após a identificação de problemas de solvência, com um fundo de garantia e medidas de recuperação de ativos para atender os clientes.
Também não é correto equiparar as renúncias presidenciais: Peña apresentou sua saída em meio ao colapso de um banco com o qual tivera vínculos empresariais e à ameaça imediata de impeachment; Collor renunciou em 1992 durante outro processo político, sem relação direta com a decisão de bloquear a poupança em 1990.
E o dinheiro de brasileiros?
A medida do Banco Central paraguaio não representa um bloqueio de contas mantidas em bancos brasileiros. Quem eventualmente possui depósitos no Ueno Bank está sujeito às regras do procedimento paraguaio, independentemente da nacionalidade. O caso segue em desenvolvimento, com atenção especial ao ressarcimento dos clientes e às decisões do Congresso do Paraguai.
Reportagem do Uai Notícias Goiás baseada em comunicados do Banco Central do Paraguai, registros do Congresso paraguaio, informações da Reuters e dados históricos do Banco Central do Brasil e do Senado Federal.
