Fraude em terrenos: Polícia Civil apreende máquina de escrever usada para “envelhecer” contratos em nome de mortos em Aparecida de Goiânia
Segunda fase da Operação Terreno de Papel foi nesta segunda-feira (19/10), em Aparecida e Hidrolândia. Grupo mirava lotes quitados há mais de 20 anos por compradores que morreram antes de passar a escritura.

Uma máquina de escrever antiga, daquelas que quase ninguém usa mais, virou peça central de uma investigação sobre roubo de terrenos na Região Metropolitana de Goiânia. A Polícia Civil de Goiás (PCGO) deflagrou nesta segunda-feira (19/10) a segunda fase da Operação Terreno de Papel, em Aparecida de Goiânia e Hidrolândia, contra um grupo suspeito de forjar contratos em nome de pessoas mortas para se apossar de lotes que já tinham sido pagos.
A ação foi comandada pelo Grupo Especial de Investigações Criminais (Geic) de Aparecida, com apoio da Delegacia Municipal de Hidrolândia, as duas ligadas à 2ª Delegacia Regional de Polícia. Os agentes cumpriram mandados de busca e apreenderam contratos com indícios de falsidade ideológica, mapas de loteamentos de Aparecida e a máquina de escrever que, segundo a investigação, era usada para dar cara de documento antigo aos papéis falsos. A polícia não divulgou o número de mandados nem se houve prisões.
Como o golpe funcionava
O alvo eram lotes vendidos há mais de 20 anos. Os compradores originais tinham quitado o terreno, mas morreram antes de transferir o imóvel para o próprio nome. Ou seja, no papel, o lote ainda estava pendurado no nome do loteamento.
De acordo com a Polícia Civil, o esquema seguia este caminho:
- Com certidões de óbito e dados pessoais dos compradores mortos, o grupo redigia contratos de compra e venda com data antiga, como se o negócio tivesse sido fechado quando eles ainda estavam vivos;
- Os contratos eram datilografados em máquinas de escrever antigas e passavam por técnicas de envelhecimento artificial do papel;
- O grupo apresentava às loteadoras procurações que pareciam ter sido feitas em cartórios de outros estados, principalmente do Maranhão e do Pará, com declarações falsas, para conseguir autorização para lavrar a escritura definitiva;
- Os imóveis eram passados para o nome de “laranjas”, entre eles pessoas em situação de rua;
- Depois, os lotes eram revendidos a terceiros que, na maioria das vezes, não sabiam que a papelada era falsa.
O resultado é um prejuízo em cadeia: a família de quem pagou o terreno perde o bem, e quem comprou depois, de boa-fé, pode acabar com um imóvel cuja origem é contestada na Justiça.
Próximos passos da investigação
Todo o material apreendido vai passar por perícia. A Polícia Civil agora tenta identificar outros integrantes do grupo, mapear os imóveis transferidos de forma irregular e localizar novas vítimas. Famílias que desconfiem que um lote de parente já falecido foi parar no nome de outra pessoa podem procurar a delegacia da cidade onde fica o imóvel.
O que muda para você: como proteger o lote da família
O caso mostra um risco comum em Goiás, onde muitos lotes foram comprados em prestações décadas atrás e nunca chegaram a ser escriturados. Pela lei brasileira, só é dono de fato quem tem a escritura registrada na matrícula do imóvel, no Cartório de Registro de Imóveis. Contrato de gaveta e recibo de quitação ajudam a provar o pagamento, mas não transferem a propriedade. Alguns cuidados:
- Confira a matrícula: peça no cartório de registro de imóveis uma certidão atualizada do lote para saber em nome de quem ele está;
- Guarde os documentos originais da compra, como contrato, carnês e recibo de quitação;
- Regularize: se o comprador já morreu, o lote entra no inventário, e a transferência para os herdeiros deve ser feita com orientação de um advogado ou da Defensoria Pública;
- Vai comprar um lote? Desconfie de preço muito abaixo do mercado, de vendedor com pressa e de procurações feitas em cartórios distantes. Antes de pagar, puxe a certidão da matrícula e o histórico do imóvel.
Golpes envolvendo documentos e dinheiro têm sido alvo frequente da Polícia Civil na Grande Goiânia. Também nesta segunda-feira, a PCGO fez buscas em Aparecida contra suspeitos do golpe do falso advogado, que já causou prejuízos de até R$ 1 milhão em Goiás.
Tem um lote antigo na família que nunca foi escriturado? Compartilhe esta matéria com quem precisa saber e continue acompanhando o Uai Notícias Goiás para os próximos passos da investigação.
